Haiti e Brasil: Roda de Conversa debate legislação migratória, xenofobia e genocídio do povo negr0

Sao Paulo, setembro 20, 2016 – Por Rogéria Araújo | Comunicação Jubileu Sul Brasil

roda-haiti3Com representação de diversos movimentos sociais foi realizada no último dia 17 de setembro a Roda de Conversa “Haiti e Brasil: O que temos em comum?”. A atividade aconteceu na sede do Sindicato dos Advogados, em São Paulo, e levantou discussões e problemas semelhantes enfrentados tanto por brasileiros/as com os imigrantes haitianos que estão morando no Brasil. A Roda de Conversa acontece dentro da Campanha Permanente de Solidariedade com o Haiti, que a rede Jubileu Sul juntamente com outras entidades vêm realizando há 12 anos.

Durante o debate muitas falas apontaram para a união de forças no que diz respeito à soberania dos dois povos. Se de um lado, o Haiti está ocupado por forças militares há 12 anos – tendo à frente o Brasil no comando da força de paz e estabilização da ONU – por outro as Unidades de Polícia Pacificadora têm feito um papel semelhante ao ter como público-alvo a população mais vulnerável que está nas favelas e comunidades brasileiras, as quais têm servido como espaço de treinamento das tropas que vão para o Haiti devido à forte semelhança entre os dois países. Soraya Misleh, da Frente em Defesa do Povo Palestino, denuncia o uso de tecnologia israelense nos dois aparatos militares. “As pacificações das UPPs no Rio de Janeiro têm tecnologia israelense e treinamento israelense. Infelizmente, nos últimos cinco anos o Brasil se tornou um dos 5 maiores exportadores de tecnologia militar israelense”, falou. Acrescentou que este pedido pela retirada das tropas acontece também de forma contundente na Palestina.

O debate contou também com a participação de Cleyton Borges, da Uneafro, que elencou como ponto comum o genocídio histórico vivido tanto pelos haitianos como os povos negros e pobres no Brasil. “Esse assunto nos liga diretamente como o Haiti e nos faz pensar a necessidade de que tenhamos também políticas públicas estruturadas de acolhimento e que enfrentem não só a ausência de acolhimento institucional, mas principalmente combatam o racismo e a xenofobia. Percebemos que na força dos haitianos também temos que enfrentar o racismo no Brasil”, falou.

Já Claudicéia Durães, do movimento Quilombo Raça e Classe, trouxe a história para falar sobre a dívida histórica que o sistema capitalista tem para com as vítimas da escravidão e a devida reparação. “Temos em comum este processo da diáspora – a separação do povo de sua origem. Daí surgiu um movimento de exploração e opressão. Exigimos reparações não só no Brasil, mas no mundo. O capitalismo deve a esse povo negro sua reorganização, deve o traço que foi perdido de sua humanidade, sobretudo no atual cenário. Cabe a qualquer país receber com muita honestidade delegando a esse povo direitos em políticas públicas, direito para seres humanos”, afirmou.

Hertz Dias, do movimento hip-hop Quilombo Urbano, disse que mais do que nunca é oportuno realizar atividades como estas, envolvendo populações que são oprimidas. “Não é só uma troca de experiências. Acho que isso aqui está apontando para algo que estamos precisando neste momento que é construir unidade. Importante darmos continuidade a esse processo”, afirmou.

O projeto de lei sobre migrações que aguarda votação na Câmara dos Deputados, em Brasília, foi o ponto central da apresentação de Vera Gers Dimitrov, voluntária do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante. De acordo com ela, este projeto pode apresentar um perigo para a população migrante porque vai contra várias reivindicações feitas e defendidas pelos/as imigrantes/as e por movimentos e entidades que atuam na defesa do direito de migrar. “Sobretudo no que concerne a políticas públicas regionais, a ausência de uma diretriz ou de um órgão, autarquia, agência que regule a política migratória. Importante frisar a importância disso no âmbito das cidades, que é onde os imigrantes têm suas vidas”, falou.
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Laure Jeanty e Fedo Bacourt, integrantes da União Social dos Imigrantes Haitianos (Usih), avaliaram a Roda de Conversa – que aconteceu em dois momentos (19 de agosto e 17 de setembro) – como muito positiva para compartilhar a história de luta tanto de haitianos como de brasileiros. Para a Usih está definido que é preciso traçar estratégias de irmandade contra o preconceito, o racismo, a xenofobia e a discriminação. “Devemos nos unir para enfrentar tudo isso. Sem violência. Vamos resistir. Essa força está dentro de nós, negros e pobres, e será construída para vencer esses obstáculos”, afirmou Laure.

Para a rede Jubileu Sul Brasil que, há 12 anos, desde antes da ocupação militar do Haiti, realizava debates e ações em solidariedade com o povo haitiano, a Roda de Conversa é mais uma oportunidade de afirmar e defender a soberania e a autodeterminação dos povos. Os imigrantes haitianos são portadores de uma história de luta e resistência de mais de 100 anos. Temos que aprender com eles e ao mesmo tempo continuar a nossa luta em defesa do povo pobre que está sendo exterminado nas periferias, nossa juventude. As Rodas de Conversa foram mais um espaço para reafirmar nossa luta conjunta pela retirada das tropas militares do Haiti e defender os direitos dos povos de migrar, por um mundo sem fronteiras.

A Roda de Conversa foi uma realização da USIH e da rede Jubileu Sul Brasil. São parceiros da atividade: o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), a UneAfro e o Comitê Pró-Haiti.

http://www.jubileusul.org.br/nota/4021

 

 

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